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Dados Básicos
Título
Moradores de corredor, carreteiros e trabalhadores de estâncias: formas sociais marginais de agricultura familiar no contexto da economia estancieira no Rio Grande do Sul
Número do projeto
054895
Número do processo
23081.041724/2020-16
Classificação principal
Pesquisa
Data inicial
16/10/2020
Data final
27/07/2023
Resumo
Este projeto tem como panorama uma análise de agentes e grupos sociais relativamente ausentes na literatura sobre o Rio Grande do Sul (RS), especialmente os ligados à economia estancieira. Ainda que a categoria que se convencionou chamar como pecuária familiar tenha sido acionada para evidenciar modos de vida familiares em estabelecimentos com até 300 ha no rural do Rio Grande do Sul, considera-se que tal abordagem passa um tanto ao largo de compreender as interdependências dessas formas sociais dentro de um contexto econômico estancieiro dos últimos 50 anos. Nesse contexto, as categorias nativas que temos identificado em pesquisas anteriores pelas designações moradores de corredor e carreteiros denotam um conjunto de trabalhadores rurais e agricultores familiares que possuem sua reprodução social baseada não somente no cultivo de pequenas parcelas de terra, mas, também, no assalariamento em grandes propriedades rurais, numa condição marginal à economia estancieira e com alta vulnerabilidade social. Nesse sentido, importa investigar a trajetória desses grupos sociais de trabalhadores e pequenos proprietários em conformidade com as dinâmicas de desenvolvimento das grandes propriedades. Esta pesquisa será realizada no município de São Gabriel, RS. Em termos metodológicos procuraremos guiar as análises a partir das interlocuções com agentes sociais nativos das situações investigadas e do conjunto de categorias que estes acionam para referenciar posições, estratégias e trajetórias no espaço social
Objetivos
Objetivo geral Analisar o sistema de posições sociais das formas marginais de agricultura familiar no contexto da economia estancieira, desvendar sua lógica, os cálculos econômicos envolvidos e suas estratégias de reprodução social. 3.1.1. Objetivos específicos • Investigar as diferentes trajetórias das formas marginais de agricultura familiar em consonância com as possibilidades abertas no próprio espaço social em uma perspectiva histórica, ou seja, considerando-se que esses trabalhadores estão inseridos no sistema de posições sociais na economia estancieira; • Analisar como se dá a diversidade interna das categorias sociais designadas como moradores de corredor e carreteiros e situar as diferentes trajetórias e práticas que os constituem enquanto trabalhadores/agricultores familiares; • Identificar e analisar como se dá a diversidade interna da categoria social designada como mulher rural e da categoria trabalho feminino, diante das experiências das mulheres oriundas de grupos domésticos marginais na economia estancieira; • Compreender as estratégias de reprodução social que estes trabalhadores e trabalhadoras têm posto em prática nos últimos anos; • Analisar as relações de emprego e dependência estabelecidas com as grandes propriedades da região, tanto aquelas produtoras de gado extensivo quanto às produtoras de cereais e possíveis particularidades entre ambas; • Entender como as políticas atuais de transferência direta de renda e as de promoção da produção na agricultura familiar têm impactado nas suas estratégias de reprodução e trajetórias das famílias; • Desvendar as lógicas e o cálculo econômico desses agricultores e agricultoras familiares para com suas explorações agropecuárias.
Justificativa
Os estudos sobre as formas sociais de agricultura familiar no Brasil tiveram uma significativa profusão a partir dos anos de 1990 (Veiga, 1991; Abramovay, 1992; Lamarche, 1993, 1998; Medeiros et al., 1994; Guanziroli, 2001; Conterato, 2004; Neves, 2007; Schneider, 2009; Wanderley, 2009; dentre outros). As lutas por reconhecimento (Honneth, 2009) destes setoriais sociais, o aumento do interesse acadêmico, a construção positivada da noção de agricultura familiar (Picolotto, 2011; Grisa, 2012) e as políticas públicas específicas (Grisa; Schneider, 2015) tiveram o mérito de dar maior visibilidade política para amplos setores sociais do campo brasileiro. Em que pese essa bibliografia ser extremamente significativa para a compreensão da diversidade social da agricultura familiar no Brasil (Schneider, 2006), há uma relativa ausência de estudos sobre os setores que possuem sua reprodução social baseada no cultivo de pequenas parcelas de terra e, não raro, no assalariamento em grandes propriedades rurais de gado extensivo no Rio Grande do Sul. Trata-se de investigar as condições de reprodução social de um conjunto de trabalhadores rurais e de um tipo de agricultura familiar que é marginal à economia estancieira e com alta vulnerabilidade social. Não nos referimos, portanto, aos setores sociais que se convencionou chamar de pecuaristas familiares com até 300 hectares de terra (Ribeiro, 2009; Fernandes, 2012; Waquil et al., 2016), mas aos que a campo são chamados de carreteiros e moradores de corredor enquanto pequenos proprietários/ posseiros/ agregados, que cultivam pequenas áreas de terra, muitos deles entre a cerca das grandes propriedades e as estradas, sendo que aí criam pequenos animais e poucos bovinos nas pastagens em suas margens. Este projeto busca analisar a dinâmica das relações sociais que se estabelece na economia estancieira e que tende a definir as estratégias de reprodução social destes grupos de modo relacional no espaço social (Bourdieu, 2002). Ou seja, pretende-se identificar o sistema de posições sociais dentro das populações trabalhadoras da economia estancieira, desvendar sua lógica, os cálculos econômicos envolvidos e suas estratégias de reprodução social. Isso faz com que a investigação desses setores sociais leve em conta as condicionalidades impostas por um espaço social no qual a grande propriedade estancieira tende a definir as margens e limites das trajetórias de grupos sociais subordinados em termos das condições de subsistência. Nesse sentido, importa investigar a trajetória desses grupos sociais de trabalhadores e pequenos proprietários em conformidade com as dinâmicas de desenvolvimento das grandes propriedades em seus períodos de auge e declínio como forma de perceber quais são estas condicionalidades numa dimensão histórica. Trata-se de entender que um espaço social que é caracterizado por grandes domínios fundiários acaba por definir mesmo os destinos das formas sociais de agricultura familiar, como indica a bibliografia especializada (Sigaud, 1979; Garcia Jr., 1989; Rosa, 2012). Desse modo, a agricultura familiar e os trabalhadores de que tratamos neste projeto se diferenciam em larga medida das formas sociais de agricultura familiar das regiões coloniais do estado, sobre as quais versam a quase totalidade de estudos a este respeito. Tudo se passa como se os agricultores familiares das regiões coloniais formassem uma espécie de tipo ideal quando a referência é o Rio Grande do Sul. Outras formas de exploração familiar da terra na região estancieira, que caracteriza a maior parte do território do estado, pouco aparecem na bibliografia especializada. Para tomarmos um exemplo, os estabelecimentos agropecuários de até 10 hectares representam 22% do total no município de São Gabriel (IBGE, 2006). Não parece tratar-se de formas residuais de exploração da terra com base no trabalho familiar, o que, então, não justificaria uma pouca relevância social, tampouco a insuficiente atenção científica despendida até então. O fundamental a perceber é que são processos sociais de formação, desenvolvimento, condicionalidades, restrições e oportunidades diferentes entre as formas de agricultura familiar colonial e no espaço social estancieiro. Ao contrário do primeiro caso, o segundo se desenvolveu historicamente na relação com a grande propriedade; enquanto no primeiro caso os agricultores migravam para as regiões de floresta ao norte do estado para reproduzir seus modos de vida, no segundo caso a reprodução enquanto pequenos produtores dependia da relação personalizada estabelecida com o senhor de terras, que poderia expulsar ou incorporar maior quantidade de famílias em seus domínios. Esse segundo caso se assemelha mais com outras configurações sociais no país, como no caso das relações de Morada no Nordeste (Garcia Jr., 1989) e do Colonato no Sudeste brasileiro (Stolcke, 1986), quanto às lógicas que presidem seu desenvolvimento. Mas nesses casos os produtos de interesse do senhor de terras eram cultivos agrícolas, enquanto que na economia estancieira a grande diferença com estas é que os produtos de interesse estiveram historicamente relacionados com a pecuária extensiva e isso deve condicionar diferentemente o uso e exploração da mão de obra. É fundamental desvendar no caso rio-grandense como que a lógica de funcionamento da economia estancieira pode implicar em deslocamentos de mão de obra para dentro das próprias estâncias, ou na liberação de mão de obra que pode migrar para periferias urbanas ou, simplesmente, constituir os chamados moradores de corredor. Esse campesinato que se constitui na periferia das grandes propriedades pode voltar a ter sua mão de obra absorvida nos períodos em que cresçam as necessidades de trabalho na economia pastoril ou, mais recentemente, com a expansão das lavouras de cereais. Importa investigar também como as políticas públicas atuais (auxílios monetários, Luz Pra Todos, Pronaf, etc.) influenciam na montagem das estratégias de reprodução destes setores sociais, sobretudo os agentes que historicamente colocaram em prática as carreteadas enquanto estratégias de vinculação econômica aos mercados urbanos locais da região em estudo. Por mais que esta pesquisa esteja focada nas práticas atuais de subsidência destes agricultores familiares, se considerará sua trajetória enquanto grupo no espaço social estancieiro desde a década de 1960, quando aumentam os cultivos agrícolas nesta região e tendem a se alterar as relações de poder entre os agentes (Piccin, 2012, p. 283). Esta pesquisa será realizada no município de São Gabriel, RS, onde o coordenador deste estudo já fez incursões a campo devido sua tese de doutoramento e onde os demais membros da equipe também têm se inserido por meio de outro projeto operado desde 2015 com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, este projeto de pesquisa propõe uma nova etapa em termos de um esforço coletivo de estudos que vem se consolidando nos últimos anos por docentes, doutorandos, mestrandos e graduandos da equipe. A partir das primeiras imersões a campo onde pudemos analisar estratégias de reprodução social do setor estancieiro (Piccin 2014a; 2014b; 2015a; 2015b), relações sociais de produção nas estâncias (Zanella et al., 2018), a prática social da carreteada (Betto et al., 2018), trajetórias sociais de trabalhadores de estâncias (Zanella et al., 2018) e as lutas por terra em São Gabriel (Zanella; Piccin, 2018) propomos estender o escopo da pesquisa para a compreensão do sistema de posições sociais das formas marginais de agricultura familiar no contexto da economia estancieira, tendo em vista suas lógicas, os cálculos econômicos envolvidos e as estratégias de reprodução social.
Resultados esperados
1 artigo de revisão da literatura a ser submetido a evento científico nacional e/ou internacional; 1 artigo de revisão da literatura a ser submetido à publicação em revista especializada. 2 artigos com os primeiros resultados do trabalho de campo realizado, a serem submetidos a eventos científicos nacionais e/ou internacionais; 1 artigo com os primeiros resultados do trabalho de campo realizado, a ser submetido à publicação em revista especializada; 2 artigos com os resultados da segunda etapa do trabalho de campo realizado, a serem submetidos a eventos científicos nacionais e/ou internacionais; 1 artigo com os resultados da segunda etapa do trabalho de campo realizado, a ser submetido à publicação em revista especializada; 2 artigos com os resultados finais do projeto, a serem submetidos a eventos científicos nacionais e/ou internacionais; 2 artigos com os resultados finais do projeto, a serem submetidos à publicação em revistas especializadas; 1 livro a ser organizado com os resultados finais do projeto; 1 seminário final público para divulgar e debater os resultados da pesquisa. Esse resultados/produtos esperados deverão responder as seguintes questões: a) quais são as trajetórias-tipo (ver metodologia) destes setores de agricultura familiar conhecidos a campo como moradores de corredor e carreteiros desde a década de 1960? b) Qual é a diversidade social interna representada pelas próprias designações de moradores de corredor e carreteiros? c) Quais são as estratégias de reprodução social que estes setores de trabalhadores rurais têm acionado em suas práticas ao longo dos anos? d) Como se desenvolvem as relações de “emprego” e dependência tanto nas estâncias de produção de gado extensivo quanto nas áreas de produção agrícola? e) Como as políticas públicas atuais de transferência direta de renda e de promoção à produção têm impactado nas estratégias de reprodução social e nas trajetórias das famílias? f) Quais são as lógicas e cálculo econômico desses agricultores familiares para com suas explorações agropecuárias?
Projeto em âmbito confidencial
Não
Projeto superior
-
Palavra-chave 1
trabalhadores rurais
Palavra-chave 2
campesinato
Palavra-chave 3
ruralidades
Palavra-chave 4
dominação
Tipo de evento
Não se aplica
Carga horária do curso
[Não informado]
Situação
Em andamento
Avaliação
Sem pendências de avaliação
Última avaliação
[Não informado]
Gestão do conhecimento e gestão financeira
O projeto pode gerar conhecimento passível de proteção?
Não
Propriedade Intelectual
[Não informado]
Proteção Especial
[Não informado]
Direito Autoral - Copyright
Não
O projeto contrata uma fundação? Indique a fundação
Não necessita contratar fundação
Classificações
Tipo
Classificação
Classificação CNPq
7.02.05.00-0 SOCIOLOGIA RURAL
Grupo do CNPq
521 Laboratório de Investigação Sociológica - Labis
Linha de pesquisa
99.00.00 LINHA DE PESQUISA INEXISTENTE
Quanto ao tipo de projeto de pesquisa
2.01 Projeto de Pesquisa Pura

Plano Gestão
Objetivo Estratégico
PDI 2016-2026 - Desafios
Desenvolvimento local, regional e nacional
Participantes
Matrícula Nome Função Carga Horária Período
@{matricula} @{pessoa.nomePessoa} @{funcao.descricao} @{cargaHoraria} h/semana @{dataInicial|format=dd/MM/yyyy} a @{dataFinal|format=dd/MM/yyyy}
Órgãos
Unidade Função Período
@{descricao} @{funcao.descricao} @{dataInicial|format=dd/MM/yyyy} a @{dataFinal|format=dd/MM/yyyy}
Plano de Trabalho
Metas/Indicadores/Fases
  • Meta:
    Primeira expedição de campo para realização de entrevistas e observações
    Período:
    03/05/2021 a 03/05/2022
    Valor:
    R$ [Não informado]
    Conclusão:
    0 %
  • Meta:
    segunda expedição de campo para realização de entrevistas e observações
    Período:
    03/05/2022 a 03/02/2023
    Valor:
    R$ [Não informado]
    Conclusão:
    0 %
  • Meta:
    Seminário final público de apresentação dos resultados do projeto
    Período:
    20/07/2023 a 27/07/2023
    Valor:
    R$ [Não informado]
    Conclusão:
    0 %
  • Meta:
    Seminário teórico metodológico com toda a equipe do projeto
    Período:
    26/10/2020 a 26/04/2021
    Valor:
    R$ [Não informado]
    Conclusão:
    0 %